Eu queria muito que alguém me entregasse o roteiro. Um passo a passo de como voltar pra mim mesma, com etapas numeradas e prazo no fim: siga estes sete passos e, em noventa dias, você estará curada, inteira, resolvida e com a autoestima lá em cima. Procurei esse mapa em livro, em curso, em conselho de gente bem-intencionada, em promessa de transformação com garantia. Nunca achei. Porque ele não existe, por mais que vendam o contrário com frete grátis.
O autoconhecimento não tem mapa, e o GPS interno vive dizendo "recalculando rota". É um caminho sinuoso, que dá volta, que às vezes parece te devolver pra um lugar que você jurava já ter deixado pra trás. Você acha que entendeu uma coisa sobre si e, meses depois, descobre uma camada embaixo daquela. E outra. É tipo cebola, só que com menos choro (às vezes). Não é linha reta de "eu perdida" pra "eu encontrada", fim, créditos subindo. É espiral, é contínuo, é, e levei tempo pra aceitar sem surto, infinito.
No começo isso me apavorava. Se não tem chegada, pra que andar? Mas foi aí que veio o alívio mais inesperado: a meta nunca foi "chegar". A meta é cultivar. Ir se conhecendo aos poucos, com curiosidade no lugar da cobrança, feito quem cuida de um jardim que nunca fica "pronto", só mais vivo a cada estação. Tirar a pressão do destino foi o que me deixou, enfim, curtir a viagem em vez de sofrer no retrovisor por ainda não ter chegado.
Se você está se cobrando por ainda não ter "se encontrado", respira. Você não está atrasada, não perdeu o prazo, ninguém vai te multar. Não existe um condomínio onde as pessoas resolvidas moram tranquilas tomando chá, e todo mundo que parece resolvido está, no fundo, tão em processo quanto você, só disfarça com mais elegância. A diferença é só quem largou a exigência de uma versão final e definitiva de si.
E se você parasse de se cobrar um destino e reparasse em quanto do caminho você já andou sem se dar conta?