Liberdade não é sobre sexo (calma, gente)

Toda vez que eu falo em liberdade feminina, tem alguém que entende errado de propósito e já levanta a sobrancelha. Como se "libertar-se" fosse código secreto pra algo picante, uma senha de mulher "descontrolada". Então deixa eu desarmar essa bomba logo, antes que estrague a conversa: liberdade não é sobre sexo. Pode abaixar a sobrancelha.

Liberdade é viver inteira. É rir alto sem checar se o riso é "adequado" (adequado pra quem, mesmo?). É dançar descalça na cozinha num domingo à tarde só porque tocou aquela música. É comer devagar o que dá prazer, dizer não sem anexar uma justificativa de três laudas, dizer sim sem pedir autorização a ninguém. É parar de terceirizar a própria alegria, de ficar esperando ela chegar junto com o reconhecimento alheio, o parceiro ideal, os filhos criados ou o tal momento perfeito que você promete a si mesma "quando acalmar". Aviso de amiga: não vai acalmar. A vida é agora, nessa bagunça linda.

O desejo entra na história, sim, mas como prova, não como tema. Mulher que se permite desejar é mulher que se permite querer. E querer é justamente o que a gente passou a vida sendo ensinada a fazer com culpa, de preferência escondido. Por isso o assunto assusta tanto: o desejo é só a pontinha visível de uma liberdade bem maior, a de existir pra si e não só pros outros. Quem aprende a se permitir um beijo aprende, no mesmo pacote, a se permitir uma vida.

No fim, liberdade é sobre prazeres inteiros, sem concessão e sem pedido de desculpa depois. E prazer inteiro é qualquer coisa que você faz por você. Pode ser o corpo, claro. Mas também pode ser uma tarde inteira só sua, um livro sem interrupção, um silêncio delicioso, uma viagem sozinha, um dia de não fazer absolutamente nada e não dever satisfação. Tudo isso mora no mesmo bairro chamado liberdade. E reduzir esse bairro todo a uma palavrinha só é jeito antigo de nos manter pequenas.

 

Qual "prazer inteiro" você vem empurrando com a barriga? E por que ele foi parar no fim da fila?