Cuidar de si não é egoísmo (e eu tenho provas)

Outro dia eu menti. Disse que estava ocupada e não podia. O plot twist é que era verdade: eu estava ocupadíssima, comigo. Ocupada em não fazer nada de útil, em ficar quieta, em recuperar um fôlego que eu vinha adiando fazia semanas. Só que "tô ocupada comigo" ainda soa, pra muita gente (e por muito tempo soou pra mim), como desculpa esfarrapada. Como se o meu tempo só valesse quando estivesse trabalhando pra outra pessoa.

Cresci ouvindo, nas entrelinhas, que mulher que se cuida demais é egoísta. Que o bonito é dar, servir, estar sempre disponível e sorrindo, de preferência com a casa arrumada. Engoli tão bem esse recado que, por anos, tratei descanso como uma recompensa a ser merecida, tipo carimbo de cartão fidelidade. Detalhe: o cartão nunca completava. Sempre tinha mais uma tarefa, mais alguém precisando, mais um "depois eu cuido de mim" empurrando o meu cuidado pra um dia que nunca aparecia na agenda.

Hoje eu penso o contrário, e com convicção de quem já pagou pra ver. Egoísta é quem deixa de se cuidar, porque mulher esgotada não sobra pra ninguém. Ela dá o que não tem, sorri o que não sente, responde no grito o que queria dizer com carinho, e um dia pifa no meio da vida sem entender por quê. Priorizar-se não é luxo, é sobrevivência. É a tal da máscara de oxigênio que mandam colocar em si primeiro, não por egoísmo, mas pela razão mais óbvia do universo: sem ar, você não salva ninguém, nem a si.

Talvez você também tenha essa listinha de merecimento rodando na cabeça, feito música chiclete. A sensação de que só pode parar quando tudo estiver resolvido. Notícia difícil e libertadora ao mesmo tempo: nunca vai estar tudo resolvido. Se depender disso, você para em 2049. Então o momento de se cuidar não é lá na frente. É este, tortinho, no meio da bagunça.

 

Quando foi a última vez que você reservou vinte minutos só seus, sem justificar pra ninguém? E de quem é a voz que chama isso de egoísmo?