Eu sou das exatas. Dos números, das equações, do mundo onde dois mais dois têm a gentileza de dar sempre quatro, sem drama e sem plot twist. Construí boa parte da vida sobre a certeza de que tudo podia ser calculado, previsto e organizado numa planilha caprichada. E confesso: tinha orgulho nisso, e tinha também um esconderijo bem confortável. Enquanto eu ficava nas exatas, eu não precisava lidar com o que não se mede: o que treme, o que dói, o que deseja sem preencher formulário.
Aí a poesia chegou e a lógica escorregou na casca de banana. Descobri, meio sem querer, que existe coisa que fórmula nenhuma alcança: o arrepio diante de um verso, a vontade que não pede licença à razão, o afeto que se recusa a caber na célula da planilha por mais que eu formate, filtre e congele o painel. E, por um tempo, isso me pareceu quase traição a mim mesma. Como se dar espaço à intuição fosse rebaixar a inteligência que sempre me definiu. Como se sentir fosse um bug.
Não é. Essa foi a descoberta que me deixou, enfim, inteira: dar lugar à intuição e ao afeto não é abrir mão da razão, é parar de viver em meio expediente. A mente exata e a alma que sente não estão disputando o mesmo trono; são as duas mãos da mesma pessoa. Posso ser objetiva e cirúrgica numa reunião de manhã e me desmontar diante de um poema à noite, e nenhuma dessas duas mulheres é mais legítima que a outra. As duas são eu, ao mesmo tempo, sem contradição, só complexidade, que é coisa de gente viva.
A gente aprende, principalmente as treinadas pra serem sensatas, a desconfiar do que sente. A pedir prova, a exigir justificativa, a validar cada emoção antes de deixar ela existir, como quem confere nota fiscal. Mas nem tudo que importa precisa fazer sentido lógico pra ter valor. Às vezes a coisa mais inteligente do mundo é se permitir sentir sem exigir de si um relatório com gráfico e conclusão.
Onde você anda pedindo prova pra um sentimento que só queria ser sentido? E o que aconteceria se, uma vez, você não exigisse a justificativa?